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Liberação dos filmes da Mostra Canadense, na Cinemateca em SP

Mostra de Cinema de Quebéc, de 24 de junho a 04 de julho de 2010.

A Mostra de Cinema de Québec reúne 27 trabalhos inéditos no Brasil, muitos deles premiados no Canadá e internacionalmente. Trata-se da primeira retrospectiva de filmes de ficção e documentários sobre Québec exibida para o público brasileiro. Os filmes, diferentes na abordagem, nos temas e nas épocas, revelam uma Québec em transformação após um grande isolamento da cena cultural mundial.

Em 1948, ao colocar em xeque valores tradicionais e o imobilismo da sociedade quebequense, um grupo de artistas assina o Manifesto Refus Global, tornando-se uma referência cultural para os movimentos artísticos e políticos que viriam eclodir a partir dos anos 1960. Nesse momento Quebec sofre uma radical mudança sócio-cultural que resultará na chamada Revolução Tranquila. Músicos, poetas, escritores, artistas, cineastas e políticos se engajam por uma Quebec livre do peso religioso e tradicionalista. Esta revolução está aqui representada em diversos filmes.

Em Le Chômeur de la mort, Benjamin Hogue e Pierre Luc Gouin traçam um perfil do controvertido e célebre poeta Claude Péloquin, que marcou a cena cultural de Québec dos anos 1960 e 1970. Realizando uma crítica autoral após 40 anos do Refus Global, a cineasta Manon Barbeau, filha de um dos signatários, realiza o filme Les Enfants du Refus Global de grande carga emocional e ousadia.

Herdeiro da geração pós-revolução tranquila destacamos o trabalho de André Gladu, que comparece a esta mostra com dois filmes. Em Je suis fait de musique mostra-se insaciável em suas buscas pelas raízes da identidade de Québec por meio das viagens musicais que nos proporciona. Já em La Conquête du grand écran aborda a tradição do acordeão em Montréal e faz um retrato sobre a história do cinema quebequense.

Paralelamente à eclosão de inúmeras produções culturais a partir da década de 60, começam a surgir os primeiros filmes que tratam dos povos indígenas, até hoje pouco conhecidos do próprio público canadense. O cineasta Arthur Lamothe é um dos pioneiros nesse registro, produzindo uma extensa obra de mais de 100 filmes apenas sobre os Innu, povo indígena do leste do Canadá situado majoritariamente na região da chamada Côte-Nord de Québec. O público brasileiro poderá conhecer um destes filmes, On disait que c’était notre terre, além do seu primeiro documentário Les bûcherons de Manouane, que já traz sua marca, ou seja, seu interesse pelo outro, aquele que vive à margem. Nesse caso o foco de sua preocupação é a áspera vida dos lenhadores de Manouane, na região da Haut-Saint-Maurice.

Com o intuito de introduzir a complexa realidade indígena selecionamos filmes bem distintos em suas abordagens e estilos. A ficção Ce qu’il faut pour vivre, de Benoit Pilon, trata do difícil, mas possível diálogo entre a sociedade Inuit e a quebequense-canadense dos anos 1950; e no filme Qallunat, why white people are funny, de Mark Sandiford, feito com os Inui, o diretor inverte os papéis de quem está atrás da câmera; são os Inuit que fazem um divertido documentário “antropológico” sobre a sua visão acerca do homem Branco.

Com o filme Une tente sur Mars, protagonizado pelos Innu, os diretores Luc Renaud e Martin Bureau provocam uma reflexão importante e atual sobre o lugar dos povos indígenas na sociedade quebequense e, acima de tudo, o que vem ser a identidade de Québec dentro da nação canadense. Finalmente os curtas do projeto Wapikoni Mobile, coordenado pela cineasta Manon Barbeau, permite há cinco anos que pela primeira vez jovens indígenas de diferentes nações expressem seus desejos e inquietações. O resultado é surpreendente.

Os jovens cineastas Anais Barbeau-Lavalette, Hugo Latulipe e Luc Bourdon nos revelam uma Quebec contemporânea, preocupada em revelar suas idiossincrasias, sua história e sua identidade. Em La mémoire des Anges, de Luc Bourdon, mergulhamos em uma Montreal urbana e cosmopolita, com base na montagem de trechos de 120 filmes produzidos nos anos 1950 e 60; o resultado é um painel imagético vigoroso e poético. Manifestes en série, realizado em 2008 por Hugo Latulipe, pode ser lido como uma reatualização do manifesto Refus Global, representado, nesta mostra, pelo episódio Decoloniser le pays, que faz uma reflexão sobre o consumo desenfreado em nossa sociedade. Inspirado na visão dos povos indígenas o filme mostra que um extrato, cada vez maior da população canadense, se opõe a isso.

O filme Le Ring, de Anaïs Barbeau-Lavalette, realizado no bairro pobre de Hochelaga-Maisonneuve, insere-se dentro de uma tradição de cinema social e traça um perfil sensível de um menino oriundo de uma família de baixa renda que sonha em ser um grande boxeador. O filme aborda um viés social pouco conhecido acerca da realidade canadense.

Dedé, à travers les brumes, de Jean-Philippe Duval, é protagonizado pelo musico Dedé, que se destaca na cena musical de Québec nos anos 1980. O filme aborda uma época de grande efervescência cultural que sonha com a independência de Québec. Numa linguagem que combina documentário, ficção e arte, os filmes dirigidos por Lysanne Thibodeau, Esprits de famille et Éloge du retour, perseguem as origens do espírito de Québec dentro de uma narrativa intimista.

Para melhor compor esse mosaico quebequense, selecionamos dois filmes de dois realizadores de origen estrangeira que adotaram o Canadá como sua moradia: Le voyage du capitaine Michaud, de Yann Langevin, numa narrativa bem humorada, nos apresenta o simpático marinheiro Michaud, originário da Gaspesie, que empreende um périplo em seu barco desde sua cidade natal, Saint-Anne-des-Monts, até o Haiti. No curta-metragem La neige cache l’ombre des figuiers, de Samer Najari, acompanhamos um dia de trabalho de seis imigrantes recentemente chegados em Montréal e o impacto do primeiro frio glacial.

Finalmente com os curta-metragens Lila, de Robin Aubert e Killing time de Tara Johns, trazemos dois filmes premiados que evocam o vigor do cinema de curta metragem de Québec.

O objetivo da Mostra é colocar em contato o público brasileiro com a realidade de Québec suscitando uma discussão em torno de sua identidade. O evento realiza-se simultaneamente na sala de cinema da Universidade de São Paulo (CINUSP) e na Cinemateca Brasileira de São Paulo.

Realização: Cinemateca Brasileira e Cinusp Paulo Emílio
Curadoria: José Cláudio de Sena e Paula Morgado

Para maiores informações, acesse o blog da mostra:
www.cinequebec.blogspot.com

Publicada em 26/05/2010
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