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KM Comex transporta os filmes da Mostra - O Outro lado do Muro!

Mostra - O Outro lado do Muro!

“O outro lado do muro – O cinema na Alemanha Oriental” é uma mostra de cinema que acontecerá em novembro de 2009, no Brasil. A intenção desse evento é exibir aproximadamente 15 filmes produzidos nos estúdios da DEFA, na Alemanha Oriental, no período da Guerra Fria.

Os filmes produzidos na Alemanha Oriental, durante o período em que o muro de Berlim permaneceu de pé, constituem uma cinematografia tão importante quanto desconhecida por nós. Criada em 1946 e instalada nos estúdios de Babelsberg em Berlim, a DEFA (Deutsche Film-Aktiengesellschaft), sociedade nacional de produção cinematográfica, era o único organismo do Estado encarregado da produção de filmes na República Democrática Alemã (como também era conhecida a Alemanha Oriental). Bastante ativa no imediato pós-guerra, a DEFA produziu algo em torno de 700 filmes de ficção e mais de mil documentários, durante quarenta e cinco anos de funcionamento, até a queda do muro de Berlim em 1989.

O primeiro filme produzido pela DEFA traz as cicatrizes vivas da Segunda Guerra mundial. Rodado em 1946 nas ruínas de Berlim, "Os assassinos estão entre nós" de Wolfgang Staudte aborda de frente a questão da culpabilidade alemã. Ele descreve o encontro, em um imóvel de Berlim, entre uma senhora deportada e um médico militar do exército alemão. Enquanto ela tenta refazer sua vida, ele é assombrado pelas lembranças das mortes de civis às quais assistiu na Polônia. Ele persegue então as pistas que o levam ao oficial nazista que comandou todas essas mortes, convertido após a guerra em homem de negócios que investe nos esforços de reconstrução. A decisão do médico de entregá-lo às autoridades para que seja julgado publicamente é uma prefiguração do famoso processo de Nuremberg. Fortemente estilizado, o filme é ainda inspirado pela tradição expressionista alemã, marcando um período de transição antes da entrada em vigor dos dogmas estéticos do realismo socialista nos anos 1950. A guerra é sem dúvida um dos temas maiores do cinema da Alemanha Oriental até os anos 1970. A questão do passado nazista da Alemanha é sistematicamente ligada aos jogos ideológicos do período da guerra fria, criando um paralelo entre o combate contra o fascismo e a luta contra o imperialismo capitalista. Embora profundamente problemático, tal paralelo é um testemunho histórico valiosíssimo para a compreensão das armas ideológicas que eram mobilizadas pelas nações envolvidas na guerra fria. Essas questões estão particularmente presentes nos filmes de Konrad Wof, um dos cineastas mais importantes da RDA. Nascido na Alemanha, de pais judeus comunistas, Wolf deixa sua pátria em 1933 e se instala com a família em Moscou. Na Segunda Guerra, ele se engaja no Exército Vermelho soviético e participa do avanço das forças de liberação e da conquista da Alemanha. O reencontro doloroso com seu país natal constitui a matéria de uma poderosa obra autobiográfica," Eu tinha dezenove anos" (1968). Sem nenhum pathos, por meio de um realismo quase documental, o filme revela as atrocidades nazistas, os horrores das câmaras de gás, e se pergunta como a cultura alemã, aquela de Goethe e de Heine, pôde produzir os campos de extermínio. Como a maioria dos filmes de guerra alemães orientais da época, "Eu tinha dezenove anos" exalta o papel do Exército Vermelho no combate contra o nazismo, seu heroísmo e seu humanismo. Ele negligencia a realidade de estupros coletivos de mulheres alemãs pelos soldados russos, sugerindo antes uma paranóia da população local. Efetivamente, muitos filmes da época desenvolveram a tese segundo a qual os verdadeiros nazistas teriam encontrado refúgio na Alemanha Ocidental, integrando-se mesmo ao aparelho do Estado, enquanto os alemães antifascistas, comunistas, permaneceram no lado leste.

Essa forma de desculpabilização da população alemã oriental impediu, durante longos anos, um verdadeiro exame de consciência na RDA, ao contrário do trabalho de memória e da reflexão corajosa sobre a história alemã que foram conduzidos na Alemanha Ocidental, ao menos a partir dos anos 1960/70 com a geração de Wim Wenders, Werner Herzog, Werner Schroeter e Hans-Jürgen Syberberg (cujo "Hitler, um filme da Alemanha" pode ser considerado a obra-monumento que cristaliza e encerra toda essa reflexão histórica). Filmes como "Sterne", de Konrad Wolf (prêmio especial do júri em Cannes, 1959), ou "Naked among the wolves" (1963), de Frank Beyer, dão um tratamento ideológico ambíguo à revisão da experiência nazista na sociedade alemã. Mas há também os filmes que buscam uma visão política mais complexa e nuançada, quiçá crítica, através de um gênero do cinema alemão oriental conhecido como “filmes do cotidiano”. Essa corrente que se desenvolve nos anos 1960 confronta sistematicamente as grandes idéias do socialismo à vida das pessoas comuns, na atmosfera cinzenta das metrópoles ou no campo.

Em "Karla", de Herrmann Zschoche (1966), uma jovem professora vívida e entusiasta, interpretada por Jutta Hoffmann, a grande dama do cinema alemão oriental, é aceita em uma escola provinciana. Face à rigidez, à dureza e ao conformismo do sistema educativo, ela propõe um ensino mais espontâneo, sincero e aberto, encorajando seus alunos a desenvolver suas próprias idéias e seu espírito crítico. Suspeita de alimentar um elo estreito demais com um dos alunos, ela deverá abandonar seu posto e tentar a chance num estabelecimento mais distante. Considerado a obra-prima dos anos 1960, "The trace of stones" (1966), de Frank Beyer, se passa em um grande canteiro de obras, dirigido pelo aparelho do Partido que encoraja a competição entre os diferentes grupos de trabalho. Paradoxalmente, o grupo mais eficaz é conduzido por Balla, um trabalhador incontrolável, de métodos anarquistas. Balla e seus homens se vestem e se comportam como personagens de western. Eles passam o tempo a beber e brigar no bar local, suscitando rapidamente a hostilidade do Partido, que se apressa em pôr fim a essa desordem. A força do filme reside na oposição que ele cria entre a burocracia e o conformismo do sistema socialista e a vitalidade encarnada pelo grupo de Balla, identificado com o gênero farol do cinema americano. Isso revela uma das muitas idiossincrasias desse cinema alemão oriental – o que só o torna mais rico e mais indispensável a nosso conhecimento cinematográfico. O perfil subversivo de "The trace of stones" custou-lhe uma severa censura, conforme ocorreu a dezenas de outros filmes, produzidos na mesma época, na esteira do endurecimento do controle do Estado sobre a criação cinematográfica, a partir de 1965.

Assim, os filmes do cotidiano realizados depois dessa data não colocam mais grandes questões ideológicas. Eles se contentam em desenhar destinos individuais, pessoas que tentam viver suas vidas como podem, fora de todo engajamento político. Isso não impede que surjam obras-primas de outra espécie. A reavaliação do sistema, se ela existe, deve então se ler entre as linhas, como é o caso no magnífico "O Terceiro" (Der Dritte, de Egon Günther, 1972), no qual a mesma Jutta Hoffmann encarna uma mulher melancolicamente abandonada por dois companheiros (um deles parte para o lado Ocidental), e obrigada a criar sozinha, com um salário irrisório, seus dois filhos. Mesmo sem acreditar nele plenamente, ela casa com um terceiro homem, após compreender que, embora imersa no “paraíso socialista”, dificelmente conseguirá sobreviver permanecendo mãe solteira. "Os Arquitetos" de Peter Kahane (1990) é um dos últimos filmes rodados na Alemanha Oriental. As tentativas de um grupo de arquitetos de conceber um projeto indo contra a uniformidade, a melancolia e a feiúra das grandes cidades, se choca com as restrições das decisões do Partido, que exige antes de tudo uma arquitetura conformista e funcional. O desespero que ressai dessa obra, materializado por longos e lentos travellings sobre as construções hierárquica e linearmente modeladas da parte oriental de Berlim, não nos leva a imaginar, absolutamente, que alguns meses após as filmagens o muro seria derrubado.

Esta mostra é uma realização Vai e Vem Produções.

de 25 de novembro a 06 de dezembro de 2009.

Publicada em 26/10/2009
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